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n.
Olhão, 26.11.1936
Escritor,crítico literário. Vive no Concelho de Cascais
desde os três anos de idade. Foi funcionário da Câmara de Municipal
de Cascais e bancário. Actualmente (2006) desempenha as funções de
Director-Executivo da Fundação D. Luis I, de Cascais. Publicou o seu
primeiro livro (contos) em 1963 e o primeiro ensaio literário na
imprensa de âmbito nacional em 1965 (Diário de Lisboa).
Tem colaboração
dispersa no Jornal de Notícias, Diário de Lisboa, O
Século, A Capital e República. Colaborações nas
revistas de cultura Latitudes, Paris, e Rua Larga, da
Reitoria da Faculdade de Letras de Coimbra. Durante vários anos
assegurou o balanço literário no Jornal O Século.
Exerceu crítica literária na Vida Mundial, no Diário
Popular, no Jornal de Letras e na revista Colóquio
Letras. Em 1964 fez parte da equipa fundadora do Jornal da
Costa do Sol, jornal de que viria a ser director, a convite do
seu amigo Jorge Miranda, por um curto período nos anos noventa
(1994-1996). A página literária Texto e Diálogo, por si
dirigida, apareceu neste jornal nos anos oitenta. Coordenou, com
José Correia Tavares, o jornal Loreto 13, da Associação
Portuguesa de Escritores. Coordenou ainda a revista de cultura e
pensamento, Boca do Inferno, editada pela Câmara Municipal de
Cascais. Está ligado às principais organizações portuguesas de
escritores – Associação Portuguesa de Escritores, Pen Clube
Português, Centro Português da Associação Internacional dos Críticos
Literários e Associação Portuguesa dos Críticos Literários
de cujos corpos sociais faz ou fez parte. Integrou os júris dos
principais prémios literários portugueses, tendo sido porta-voz dos
júris do Prémio da Crítica e do Grande Prémio de Romance e
Novela atribuídos, curiosamente, com um intervalo de 10 anos, à
mesma escritora: Fernanda Botelho. Participou, com comunicações, em
congressos e encontros de escritores realizados em Portugal e no
estrangeiro, nomeadamente: Havana, Neptun (Roménia), Nuoro
(Sardenha), Lyon, Madrid, Valsini (Itália), Roma, Ripi (Itália) e
Maputo. Fez parte das comissões executivas do II Congresso dos
Escritores Portugueses (1982), I Congresso dos Escritores de Língua
Portuguesa (Lisboa, 1989) e Colóquio da Associação Internacional dos
Críticos Literários, (Lisboa, 1994); juntamente com Salvato Telles
de Menezes, foi comissário para a literatura na Bienal da Utopia,
(Cascais, 1997).
Foi integrado na
representação portuguesa que se deslocou, em 2000, ao Salon du
Livre, de Paris, por iniciativa da editora L’Inventaire,
e no qual foi apresentada a versão francesa de Era a Revolução
(C’était la Revolution), livro a que o jornal Le Monde
se referiu elogiosamente. Como tradutor, Júlio Conrado estreou-se em
2002, vertendo para português D. Carlos I, Rei de Portugal,
do escritor francês Jean Pailler. Enquanto autor, alguns dos seus
trabalhos estão traduzidos em alemão, francês, húngaro e inglês. A
sua obra está referenciada em: Dicionário da Literatura, org.
Jacinto do Prado Coelho, actualização de Ernesto Rodrigues, Pires
Laranjeira e José Viale Moutinho; Biblos, ed. Verbo;
Dicionário Cronológico dos Autores Portugueses, PEA / Instituto
Português do Livro e da Leitura; O Grande Livro dos Portugueses,
Círculo de Leitores; A Enciclopédia, Verbo / Público,
Projecto Vercial ( Internet ). Figura com um pequeno ensaio na
antologia organizada por Eugénio Lisboa, Estudos sobre
Jorge de Sena e a sua obra é referida em Outros Sentidos da
Literatura, de Duarte Faria, A Paisagem Interior, de
José Fernando Tavares, Verso e Prosa de Novecentos, de
Ernesto Rodrigues, Ficção Portuguesa de Após-Abril, de Ramiro
Teixeira, Breves & Longas no País das Maravilhas, de Annabela
Rita, Arca de Gutenberg, de Serafim Ferreira e Ensaios de
Escreviver, de Urbano Tavares Rodrigues. Eduardo Lourenço
menciona Era a Revolução no livro de ensaios O Canto do
Signo. A maioria das comunicações que apresentou em congressos
da A.I.C.L. está publicada em versão francesa na revista desta
organização internacional de críticos literários, sedeada em Paris.
Escreveu prefácios para livros de José Jorge Letria, Luís Souta, Ana
Viana e Salvato Telles de Menezes. Colaborou com depoimentos no
catálogo alusivo aos 50 anos de vida literária de Fernando Namora,
no volume A David, com que na morte do poeta o Pen Clube
Português homenageou David Mourão-Ferreira, no livro Leituras de
José Marmelo e Silva, organizado por Ernesto Rodrigues, e com um
balanço literário no catálogo do Instituto do Livro para a Bienal de
S. Paulo de 1992.
OBRAS DE JÚLIO
CONRADO:
A Prova Real,
contos, ed. do A.,1963
Clarisse, Amargura, Dezembro, contos, ed. do A.,1969
O Deserto Habitado, romance, Prelo, 1974, 2ª ed. Âncora, 2004
A Felicidade antes de Abril, romance, Parceria A. M. Pereira, 1976
Era a Revolução,
romance, Parceria A. M. Pereira, 1977, 2ª ed.
Editorial Notícias,1997, C’Était la Revolution,
Editions l’Inventaire, Paris 2000
Ou Vice-Versa,
crónicas, Regra do Jogo, 1980
Dedicado a Eva,
poemas, ed. do Autor, 1983; publicação de seis poemas deste livro na
revista Poésie Première (nº 20), França, 2001
As Pessoas de Minha Casa, romance, Círculo de Leitores, 1985, 2ª ed. Vega,1986
Olhar a Escrita,
ensaios, Vega, 1987
Gente do Metro,
contos, Vega, 1989 ( Prémio Cidade do Montijo ); o conto Gente
do Metro foi incluído em Mai Portugál Elbeszélók,
antologia húngara de contos portugueses, Budapeste, 2000
Lisboa, as Lojas de um Tempo ao Outro (texto), Editorial Notícias, 1994
Lugares de Cascais na Literatura (org. e prefácio), Ed. Notícias 1995, 2ª ed. Hugin,
2001
Lisboa, As Lojas de um Tempo ao Outro (texto), II volume, Ed. Notícias 1997
Maldito entre as Mulheres, romance, Edições Colibri, 1999
O Som e a Dúvida,
ensaio, Hugin, 1999
De Mãos no Fogo,
romance, Ed. Notícias, 2001
Desaparecido no Salon du Livre, romance, Bertrand, 2001
Ao Sabor da Escrita, ensaios, Universitária Editora, 2001; inclui o ensaio
A Poesia Portuguesa depois da Revolução de Abril,
publicado na Alemanha em Portugal Heute, Vervuert, e
Portugiesische Literatur, Suhurkamp, 1997; a versão inglesa
deste mesmo ensaio foi incluída na revista Projected Letters,
nº 4 ( Internet), 2005, em tradução de Jean Pailler
Desde o Mar,
Carcavelos Praia e outros poemas, Indícios de Oiro, 2005
Nos Enredos da Crítica, ensaios, Instituto Piaget, 2006
A publicar:
Querido Traficante, romance
CRÍTICA
1963 / A Prova Real
Júlio Conrado tem da vida uma experiência interessante – mas de uma
riqueza desencantada, cansada talvez, irónica com certeza. Tem
também uma capacidade de observação particularmente aguda às
manifestações mais exteriores de uma estrutura social em decadência.
É extremamente meritória, por exemplo, a maneira como ele se dá
conta, e é capaz de exprimir, toda uma série de pequenos “tiques”,
manias, atitudes, que definem não só os indivíduos como o grupo
social a que pertencem.
Manuel Villaverde Cabral, Planetário (A Nossa Terra), Agosto
de 1963
1969
/ Clarisse, Amargura, Dezembro
Em luta com o fácil sentimentalismo social, o que Júlio Conrado
pretende, sobre prospectar o meio português com a exactidão de um
historiador da vida privada, é apresentar as mais dramáticas
contradições, as mais significativas, as menos desveladas. Fá-lo, de
resto, naturalmente: não como quem executa uma missão, mas graças às
vivências que, afinal, por si próprias se ordenam nos textos mais
fortes e bem realizados deste livro.
Urbano Tavares Rodrigues, prefácio e
Jornal do Comércio
26.04.69
Que diremos dos contos ou novelas de Júlio Conrado,
Clarisse, Amargura, Dezembro
(Publicações Dom Quixote)? Que este jovem pelo menos não se submete
a pautas, não açaima o temperamento.
João Gaspar Simões,
Diário de Notícias,
20.11.69
Conrado não escreveu contos e novelas “de educação”, no entanto, são
muito fortes a angústia, a frustração, a náusea que investiga o
homem actual, as suas contradições e aspirações, para poder afirmar:
o simples toque de ironia, de sarcasmo, de antiascetismo, presentes
nalgumas páginas de “Clarisse, Amargura, Dezembro” são literatura da
mais válida que se tem escrito ultimamente entre nós.
António Augusto Menano,
A Capital,
16.04.69
1974 / O Deserto Habitado
A presente novela inicia-se com uma clara insinuação kafkiana: um
julgamento em tribunal que é uma causa em si mesmo, isto é, mais um
julgamento que se põe em causa do que uma causa que se sujeita a
julgamento. Existe uma vítima mas não uma investigação. É em si
própria, no seu anonimato, que se tornará o elemento detonador da
narrativa. A sua abertura dar-se-á pela assimilação e interiorização
dum outro assassínio, este circunstanciadamente conhecido, o de
Magda[...] E, de bom ou mau grado, é no lugar onde o escritor mais
espontaneamente se encontra que também o leitor encontra a mais
convincente expressão literária.
Duarte Faria, Colóquio Letras nº 25, 1975
1976 / Era a Revolução
Esta novela de Júlio Conrado, como lhe chama o próprio autor, é
muito capaz de ser um dos textos de prosa de ficção mais
interessantes publicados (mas, antes disso, escritos), entre nós e
depois do 25 de Abril de 1974. Pelo menos – aqui falamos sem
reservas – é o melhor livro do autor.
Luís de Miranda Rocha, Diário de Lisboa, 07.01.1978
Em
certo sentido, podemos dizer que Júlio Conrado experimenta vias de
relação do narrador com as personagens em A Felicidade antes de
Abril e Era a Revolução. Nessa experimentação reside a
necessidade de as duas obras serem estudadas criticamente. Mas há
desde logo uma reserva a levantar: o A. não soube aprender com a
experiência de 1976 para a narrativa de 1977.
Álvaro Pina, Colóquio Letras nº 48, 1979
A maioria, se não todas, das significativas obras aludidas surgem já
quando a própria Revolução se está fabricando um passado e se volve
passado... Os textos-crónicas “em cima” do acontecimento de Abril ou
próximos dele, como Era a Revolução, de Júlio Conrado, são
raros.
Eduardo Lourenço, Colóquio Letras, nº 78, 1984
1997 /2ª edição revista
Vinte anos depois, a segunda edição da novela torna esse momento
único perdido mais exasperante, na revisão de prosa agora seca e
sincopada, amputada na própria acção, em que o discurso se inscreve
como sigla ou palavra de ordem, um grafito na paisagem
literária[...] Neste ficcionista[...] reconhece-se a originária
categoria do sarcasmo – entre paródia e irrisão – que caracteriza a
nossa literatura.
Ernesto Rodrigues,
Colóquio Letras,
nº 149/150, 1998
Ora, pela consciência desse vazio ou conspiração de muitos silêncios
que se conheceram um pouco por toda a parte, no sentido perdido de
certas palavras ainda fazerem sentido, Era a Revolução
recupera, a mais de vinte e anos de distância, essa “memória do
tempo” ou o propósito denunciador de muito se ter pedido e poucos
terem sido os ganhos numa época que durou poucos meses, foi tão
conturbada e ainda hoje existem sinais de que nem todo o vazio
humano e social se preencheu.
Por isso, tal como já acontecera em As Pessoas de Minha Casa,
ponto alto na sua ficção literária, esta narrativa testemunha uma
vez mais que, nos limites da memória, Júlio Conrado sabe povoar o
passado e o presente com outra gente que andou nos caminhos
cruzados da sua pessoal experiência, retratada com toda a verdade e
rigor ficcional.
Serafim Ferreira, A Página da Educação, Março de 1998
... a novela de nome “Era a Revolução”... revela um belo
temperamento de escritor, rápido designer de situações, bom
ouvinte da linguagem da época. A organização do que é o exterior do
subjectivo, e o que é o interior do efémero, exprime, de facto, a
atmosfera global do tempo.
Jorge Listopad, Jornal de Letras, 08.04.1998
A maior virtude deste escritor é a sua invulgar capacidade de
recriar uma forma escrita de plena oralidade, coloquial, adaptada às
circunstâncias espaciais e conjunturais, nomeadamente ao vulgo
lisboeta.
Ramiro Teixeira in Ficção
Portuguesa Pós-Abril
Ora, é
justamente a partir desta problemática que se pode ler um dos
melhores livros de Júlio Conrado, publicado já numa época mais
longínqua no que respeita à Revolução portuguesa, mas que, apesar
disso, retoma as problemática pós revolucionária, pois o autor
sente-se marcado por essa época decisiva.
José Fernando Tavares, in A Paisagem Interior
1980 / Ou Vice-Versa (mitos de trazer-por-casa)
Gostei muito de ler o “Vice-Versa”, espero que numa próxima reedição
o livro venha aumentado com a desmistificação dos mitos caseiros
nacionais que até lá forem surgindo. Engatar e desengatar a
realidade faz parte da dinamitação, da dinamização, queria eu dizer,
cultural.
Maria Estela Guedes,
Diário Popular,
25.09.80
1985/86 As Pessoas de Minha Casa
Escrita moderna, desenvolta, que,
todavia, se não perde nas digressões líricas de alguma da nossa
narrativa mais recente, a de as Pessoas de Minha Casa sabe recriar,
em adequados registos, diversos meios, atmosferas e tempos, de modo
a não trair as expectativas do leitor relativamente a uma intriga
bem urdida, sem que essa recriação implique pôr de parte aquele
halo transfigurador a que toda a verdadeira ficção deve sujeitar o
real.
Fernando J. B. Martinho, A Capital, 18.04.84
A primeira impressão que nos fica deste livro de Júlio Conrado é a
da qualidade dos diálogos. Apoiando-se nas formas da linguagem
falada e nas suas ressonâncias populares urbanas, Júlio Conrado
consegue, num estilo pessoal e rico, captar o interesse do leitor da
primeira à última linha.
Miguel Serrano, Diário, 16.06.85
Mas o que mais interessa pôr em relevo, na leitura que nos comove
deste romance e no fogo cruzado que o percorre até final, na
cumplicidade narrativa e romanceada do A. e do seu personagem, em
linguagem despojada e desenvolta, sentida e experimentada ao rés das
águas do próprio tempo e de certas histórias interligadas nem sempre
da melhor forma, é, sem dúvida, o que de claramente “literário” se
perde e o que de “humano” mais se valoriza em todos os elementos
estruturais do livro: diálogos soltos, descrições vivas de pessoas e
lugares, linguagem precisa na definição de conceitos ou encadeamento
de breves histórias que atravessam a narrativa, recorrência à
memória como atitude discursiva para juntar todos os pedaços dessa
realidade vivida e fixada em pormenores subtis ou inesperados.
Serafim Ferreira, Colóquio Letras, nº 90, 1986
Um romance de inegável interesse é As Pessoas de Minha Casa,
de Júlio Conrado: há nele um inteligente trabalho narrativo que
privilegia vivências íntimas em indissociável contacto com as
fricções sociais.
Maria Alzira Seixo, Colóquio Letras nº 90, 1986
1986 / Olhar a Escrita
É
evidente que não se pode ignorar que a actividade crítica de Júlio
Conrado se desenvolve em função do meio de comunicação (o jornal, a
revista não necessariamente literária), determinando-lhe em parte o
tipo de raciocínio e de estilo, mas, no geral, ele transcende-o,
provando que uma dedicação bissexta (não profissional, não
universitária) pode ganhar em criatividade e desenvoltura, cumprindo
os seus objectivos de divulgação, pedagogia, avaliação e
interpretação de uma obra literária.
Pires
Laranjeira, Colóquio Letras, nº 104-105, 1988
1989 / Gente do Metro
Estamos perante um texto pessimista? Um pessimismo porventura
amenizado, camuflado, pela carga irónica, mesmo burlesca, subjacente
à narrativa? Parece-nos isso uma evidência, tal a soma de
frustrações e azares de Leopoldo. É um pessimismo em que, pelos
caminhos do insólito, ressalta a situação desconfortável do escritor
perante o arame farpado, por vezes subtil, que não raramente o
rodeia. É um pessimismo assumido em que a personagem sangra aos
sucessivos golpes da imperícia, do sarcasmo alheio ou da
auto-flagelação. É um pessimismo lúcido, artisticamente bem
defendido, isto é, utilizando uma convincente pujança de meios
expressivos. É, enfim, o pessimismo corajoso de alguém mais
interessado na visão da verdade – dura que seja – do que em viver na
falsa luz das mais cândidas ilusões e fantasias.
João Rui de Sousa, Jornal de Letras, 26.12.89
“Gente do Metro” não se esquiva ao divertimento que possa causar,
sobretudo o último conto que dá título à colectânea. O humor provém
da auto-crítica e da auto-sátira, retrata bem a posição social do
escritor português, a bem dizer um marginal, um desclassificado, de
quem outros podem rir-se acaso se descai e à sua pergunta: “Qual é a
sua profissão? Responde, ingénuo: “Escritor”. Há países em que o
autor se funde de tal modo na sociedade que a profissão não tem mais
nem menos importância que a de médico, mecânico, diplomata ou
jardineiro.
Maria Estela Guedes, Diário Popular, 09.09.89
Nessa complacente e sentida ironia, nos traços de quem se revê num
deslumbrante romance de Garcia Marquez, como confessa, a realidade
da vida sonhada, do drama quotidiano bem achado de certa peripécia
passada no “metro” de Lisboa, esta história ganha uma vigorosa
ternura e por aí se retoma a mesma inquietação literária que dá
forma à ficção de Júlio Conrado, no modo mais disponível e solto de
ser um ficcionista de qualidade na actual literatura portuguesa.
Serafim Ferreira, Diário, 21.10.89
Os discursos que se cruzam, desde a preocupação do escritor enquanto
personagem até aos visitantes de locais mais ou menos fantasiosos
passando pelos títeres das ideologias e dos costumes, assumem aqui o
lugar de peças de um desarmónico xadrês de valores que permitem ao
autor uma incursão pela polifonia paródica de muita garra e
novidade.
D. S. Bruno, Diário de Notícias, 18.03.90
Júlio Conrado ficciona o seu próprio drama pessoal; e consegue
divertir-se (e divertir-nos) com ele.
José Fernando Tavares, O Jornal, 16.02.90
As narrativas de Júlio Conrado (naquele que é o seu décimo título)
evidenciam um domínio total das zonas vocabulares indicadas para
cada enredo.
José do Carmo Francisco, Tempo Revista, 1989
Isto quer dizer, portanto, que Júlio Conrado, antes de mais,
evidencia um notável poder de envolvência-sedutora sobre o leitor,
até ao ponto de quase o levar a esquecer-se sobre a avaliação do
objecto literário. Em que medida este prazer lúdico experimentado
valoriza a obra enquanto tal? Eis um quesito de difícil resposta, na
medida em que Júlio Conrado faz conviver o literário com o
não-literário, o pessoal íntimo com o colectivo ficcionado, em
anacrónico absurdo, porque simultaneamente brejeiro e crítico,
anedótico e reflexivo, em divertidas situações que dão bem a medida
da sua capacidade satírica e analítica.
Ramiro Teixeira, O Primeiro de Janeiro, 04.01.90
A charge ao escritor-a-tempo inteiro é soberba: a paródia ao
estilo florido solta-se logo no limiar da prosa.
Ernesto Rodrigues, O Liberal, 23.09.89
São sete os contos que integram esta obra de Júlio Conrado,
distinguida em 1988 com o Prémio Literário Cidade do Montijo. Sete
momentos narrativos, onde se encenam realidades sociais e humanas
distintas, protagonizadas por figuras diferenciadas na sua forma de
agir e de pensar, e através dos quais nos são oferecidos registos
plurais de um real multifacetado, reflexo de uma realidade nacional
observada sob pontos de vista diversos.
Cristina Robalo Cordeiro, Colóquio Letras, nº 120, 1991
1998 / Maldito entre as Mulheres
Maldito entre as Mulheres integra-se, assim, nessa insistente
corrente de reflexão da literatura sobre Portugal que, nos dois
últimos séculos, cresceu e se aprofundou na voz dos nossos melhores
escritores. Forma sempre dolorosa de pensar e de escrever o país,
mesmo se pela via da paródia da linguagem épica ou da paródia da
linguagem “um pouco grossa” e da imagística sexual “muito grossa”,
como também aqui se faz.
Maria Fernanda de Abreu, Colóquio Letras, nº157/158, 2000
Um livro divertido, uma comédia actual, ligeira, de costumes postos
em cena, entre o peso e a medida, com o desmedido embaraço das
histórias por contar.
Luísa Mellid-Franco, Expresso, 02.04.99
1999 / O Som e a Dúvida
Júlio Conrado, crítico literário prestigiado, trabalha sobre um
personagem nascido em 1951 [José Jorge Letria], mas autor de uma
extensíssima e bastante variada obra, marcada pela particularidade
de, praticamente, cada livro seu prémio[...] Conrado arriscou e
desembaraçou-se exemplarmente excepto em duas coisas. É que o livro
merecia uma bibliografia exaustiva do biografado e uma antologia
mais abrangente.
José Viale Moutinho,
Diário de Notícias,
06.12.1999
Indiscreto que baste é-o Júlio Conrado sempre que acha necessário
sê-lo, e é-o o próprio biografado, no minucioso e interessantíssimo
depoimento com que se prestou a colaborar na feitura do livro. Mas
trata-se de uma indiscrição necessária e manuseada com um misto de
inteireza e delicadeza, de força e de subtileza, de verdade e de
pudor... [livro que se lê] por via da sedução de uma escrita plena
de energia e vigor inventivo, que sonda vigorosamente o território
humano e poético, sem nunca violar a complexa inteireza e a
delicadeza ocasional de alguma zona mais sensível...
Eugénio Lisboa, Revista
Ler,
Inverno de 2000
A capa multiplica a litografia desenhando-se (1948) de M. C. Escher,
evocando, assim, a reflexividade entre vida e obra, visíveis, que
Júlio Conrado perscruta no seu estudo, com subtileza e sensibilidade
analíticas...
Annabela Rita, in Breves
& Longas no País das Maravilhas
2000 / C’Était la Revolution
O
panfleto (codificado) é violento, a língua soberba.
J-L.D. Le Monde, 17.03.2000
Neste romance muito duro, escrito num ritmo
ofegante, Júlio Conrado deita por terra e calca sob os pés todas as
máscaras, ideológicas ou individuais.
Anne Coldefy-Faucard, Paris, 2000
2001 / De Mãos no Fogo / Desaparecido no
Salon du Livre
Aqui chegados, e vista a semelhante montagem narrativa – a voz do
narrador, intervalada por itálicos de escritor e jornalista,
recupera-se na conclusão -, importa fixar a arte das cenas, a
composição naturalista dos tipos que, amanhã, melhor documentarão os
dias de hoje (mesmo se um padre é devorado por computadores), a
limpeza dos diálogos e, sobretudo, a constância de um linguajar
extensivo a ficções anteriores, em registo de fala (de que as
gravações introduzidas são sucedâneo) como só raros lusitanos
dominam a contento.
Ernesto Rodrigues, Expresso 14.07.2001
Veicula, por outro lado, um ponto de vista, e não hesita
mesmo em manifestá-lo quando ele diverge de forma clamorosa do de
alguma personagem, a quem, no entanto, não quer privar de “expor os
pontos de vista próprios.” Uma declaração de que “tem outra visão”
das coisas vem, por exemplo, no capítulo “Bairro-Alto em
Claro-Escuro”, onde se encontram, saliente-se, algumas das melhores
páginas do livro, daquelas em que mais claro se torna por parte do
romancista a percepção de que não se trata apenas de contar de modo
expedito uma estória, de “pôr os casos”, como diria uma personagem
de Luandino, João Vêncio. No romance, o que importa é o modo como se
põem os casos, como se mobilizam recursos que o façam perdurar para
além do seu circunstancialismo mais imediato.
Fernando J. B. Martinho, Jornal de Letras, 2001
De Mãos no Fogo
é um romance dos nossos dias. Fala de uma sociedade em que o “ter”
deixou a anos-luz o “ser”, em que as consciências têm cotações como
se fossem vulgares acções compráveis na bolsa, em que as velhas
tertúlias onde eram debatidas ideias e discutidos sistemas, deram
lugar a lugares de exposição de interesses, um mundo do qual o
subentendido, a cumplicidade e a traição são aplicáveis de acordo
com as circunstâncias mais favoráveis do momento.
Appio
Sottomayor, A Capital, 28.06.2001
Autêntica incursão na selva literária, Desaparecido no Salon du
Livre é um banho de alegria, de inteligência e imaginação.
Enfim, um oásis hilariante mas pertinente, uma aventura que merecia
ser contada. Júlio Conrado soube fazê-lo sem rancor e com elegância,
recorrendo a uma escrita que revela uma grande mestria da Língua.
Liberto Cruz, Revista Latitudes, Paris, nº 23, 2003
Em
tal galeria de interesses e de ódios mal disfarçados, de leões novos
e velhos ao ataque por uma sobra de protagonismo, não faltam
segredos e secretas, amores preteridos, negócios corruptos e
créditos mal parados, segundo a fórmula bancária tão afim do autor…
Não há dúvida: as bolsas de valores podem estar em queda, mas as
fábulas do nosso tempo estão em alta.
Ramiro Teixeira, O Primeiro de Janeiro, 22.10.2001
O
desaparecimento do romancista no Salon du Livre tem como
primeira suspeita de existência de sequestro o facto de ter
declarado publicamente que o comissário da delegação portuguesa ao
Salon, de sua alcunha Brando (Marlon – sem esta
descodificação ficaria de fora a ideia de máfia), não sabia dançar…
Era o seu calcanhar de Aquiles, de resto dava cartas em tudo o que
fosse cultura e até futebol…
Maria
Estela Guedes, Triplov.com, 2001
2000 / Ao Sabor da Escrita
…
Este livro de Júlio Conrado é um apreciável serviço prestado à
literatura portuguesa contemporânea, por um dos seus ensaístas e
críticos mais bem informado, arguto e corajoso. Porque, faltava
dizê-lo, o destemor (fino, perverso, não arruaceiro) é uma das
aliciantes componentes do seu discurso. Que se trata de um
escritor e não de um autor de relatórios fica bem patente neste
livro de ensaios e críticas, mesmo que se não soubesse da existência
do autor de ficções saborosas e provocantes de que cito, quase ao
acaso, o romance irresistível que se chama Maldito entre as
Mulheres.
Eugénio Lisboa, 2002
Ver o
primeiro ( e logo último) romance de Fernando Assis Pacheco como
“reconciliação com o destino” por parte de uma geração nascida na
década de trinta, aí está um achado luminoso. Não é o único em Ao
Sabor da Escrita, volume de ensaios de Júlio Conrado. Outro
achado é ter-se em Maria Lúcia Lepecki um bom teste à eficácia da
crítica universitária no território jornalístico”... O estudo sobre
Sena, de 1997 ( e Conrado, lembre-se, era já seu atentíssimo crítico
no “Diário popular”) é simplesmente antológico.
Fernando Venâncio, Expresso,
08.09.2001
2004 /O Deserto Habitado (2ª edição, nova versão)
Foi uma pena a crítica não se ter debruçado mais atentamente sobre
este livro, sugestivamente intitulado O Deserto Habitado, que
é sem sombra de dúvida um romance de grande qualidade. Lê-se sem
despegar a atenção da narrativa que discorre num cadenciado ritmo
entre o presente e o passado, um labirinto do tempo ou uma espécie
de jogo entre a vida e a memória.
J. C. Vilhena Mesquita, Jornal Escrito (Jornal do Algarve),
Dezembro 2004
Pese embora o facto de Júlio Conrado a apresentar agora revista e em
nova versão, a verdade é que esta segunda edição não deixa de
transportar virtudes e defeitos de difícil quociente,
comparativamente a obras suas mais próximas.
Ramiro Teixeira, O Primeiro de Janeiro, 16.05.2005
2005 / Desde o Mar / Carcavelos Praia e outros
poemas
É da memória da viagem da vida vivida, de outros lugares (Bâle,
Paris, Maputo, Londres, etc.), do mar, do Pai, de migrações internas
e externas, dos outros e do seu próprio desencanto (poema
Kafka e os Náufragos do Autocarro)
de
As Dores do Princípio,
dedicado a sua mãe, talvez o melhor poema do livro, da terra onde
nasceu (Olhão), de todos os lugares onde foi deixando as suas
maravalhas
(aparas de madeira), de que falava o Padre António Vieira, para
renascer nas folhas respirando o
habitat
que o fez.
António Augusto Menano,
O Primeiro de Janeiro,
20.03.2006
O poeta intervém aqui como quem sente que deve
justificar-se pela “intrusão”, usando, no poema exordial, a figura
de retórica da captatio benevolentiae que se exprime como
“propósito” (é o título do poema), como motivação que pretende ser
essencial para o seu fazer poético: “Dar folga aos azedumes da
prosa. / Dourar as palavras com o mel / ausente dos enredos dos
romances / e dos juízos críticos / onde, tomando-me a sério, me
perdi para os outros / e pelos outros fui dado por perdido” (pág.
13). Ora o segmento “tomando-me a sério” pressupõe que este é um
exercício lúdico, o que não invalida que seja objecto de exegese
crítica sem as reservas que o Autor entende avançar. De resto, é
ainda o poema de abertura que propõe como programa “Usar como um
sábio / os últimos argumentos do prazer “ (pág. 13) e o prazer do
texto, de que falava Roland Barthes, é prerrogativa, também neste
caso específico, tanto do autor como do fruidor.
Manuel G. Simões, Revista Rassegna Iberista,
Veneza, 2006
Nos seus
versos [Júlio Conrado] ressuma a saudade da infância e dos tempos
da juventude, luz da razão perdida nas quiméricas idealizações do
livre pensador que não renuncia às influências genéticas,
transformando belos conceitos líricos numa imensa bandeira
revolucionária. Entre os trinta poemas que compõem este livro,
revi-me em “Victória Cine”, “Eros Juvenil”, “A Primeira Dúvida”, “A
Janela Indulgente”, “Aqui no Campo” e “As Dores do Princípio”, uma
ode em prosa.
J. C. Vilhena Mesquita, Jornal Escrito (Jornal do
Algarve), Abril 2005
O “Propósito” enunciado no pórtico deste livro cumpre-se
nos restantes poemas que o compõem, incluindo o impressionante texto
em prosa poética com que encerra o volume, texto intitulado “As
Dores do Princípio”. A leitura de “Desde o Mar” permite-nos
confirmar a importância e o peso que a infância possui na
experiência e no percurso literário de um autor. A fixação do
instante e do eco que o acompanha, poderá ser um propósito ambicioso
para um escritor que ensaia os primeiros passos no domínio da
criação poética. Não o será, porém, para o sujeito poético de Júlio
Conrado, cujo percurso vivencial se confunde com o literário e
vice-versa.
José Fernando Tavares, Revista Latitudes, nº 24,
Paris, 2005
2006 / Nos Enredos da Crítica
Chamamos a
atenção para a qualidade dos instrumentos de análise e o nível de
cultura literária que Júlio Conrado pratica, de modo que, sem
recorrer à linguagem técnica de que alguns críticos universitários
abusam, este ensaísta descreve-nos o âmago dos utensílios semânticos
e estilísticos usados pelos romancistas, em linguagem clara e
elegante, penetrando nos segundos sentidos que a arte do romance
abriga… Em suma, um volume que encerra um panorama riquíssimo da
literatura portuguesa das últimas décadas, a qual se mostra, neste
conspecto, de múltiplas e insuspeitadas virtualidades.
Daniel Lacerda, Revista Latitudes nº 27, Paris, 2006
subir
(Olhão, 26.11.1936)
Writer, Literary Critic and Essayist
He published his first work of fiction in 1963 and his first
literary essay in 1965 (Diário de Lisboa). He wrote literary
reviews for some of the most important Portuguese newspapers and
magazines, namely the Colóquio-Letras Review (
Calouste Gulbenkian Foundation ). He participated in several
international colloquies and congresses. He was a member of many
Portuguese important literary juries.
Besides his labour as literary critic and essayist, Júlio Conrado
has been writing fiction, poetry and chronicles, a body of work of
about twenty titles, during the last 40 years. He belongs or
belonged to the Directories of the Portuguese Writers Association,
the International Association of Literary Critics, the Portuguese
Association of Literary Critics and the Portuguese Pen Club.
Several of his books or essays are translated into German, French,
Hungarian and English.
Main Works: Fiction: O Deserto Habitado (1974, 2nd ed.
2004), Era a Revolução (1977, 2nd ed.1997, French ed. 2000),
As Pessoas de Minha Casa (1985, 2nd ed.1986), Maldito
entre as Mulheres (1999), Gente do Metro, 1989, short
story Gente do Metro in Mai Portugál Elbeszélók
(Hungria), 2000; De Mãos no Fogo (2001), Desaparecido no
Salon du Livre (2001); Poetry: Desde o Mar (2005);
Essay: A Poesia Portuguesa depois da Revolução de Abril
(in Portugal Heute and Portugiesische Literatur
[Germany]) and Projected Letters [New York]) and Nos
Enredos da Crítica (2006).
up
(Olhão, 26.11.1936)
Ecrivain, critique littéraire
Son premier livre de fiction a été publié à 1963 e son premier essai
à 1965 (Diário de Lisboa). Il a fait critique litéraire à
plusiers journaux de référence et revues spécialisées, nottament
Colóquio-Letras (Fondation Gulbenkian), Jornal de Letras
et Vida Mundial. Participation en colloques et congrès
internationaux. Participation comme juré aux plus prestigiés prix
litéraires portugais.
Membre de l’Associação Portuguesa de Escritores, Associação
International dos Críticos Literários, Associação Portuguesa dos
Críticos Literários e Pen Clube Português.
À coté de son travail de critique et essayste Júlio Conrado a écrit
fiction, poésie et cronique, production réuni sous une vintaine de
titres pendant les derniers quarante ans. Quelques livres et essais
ont été traduits en français, alemand, hongrois et anglais.
Oeuvres principaux : Fiction : O
Deserto Habitado (1974, 2ème ed. 2004) ; Era a
Revolução (1977, 2ème ed. 1997, ed. Française 2000);
As Pessoas de Minha Casa (1985, 2ème ed. 1986); Gente do
Metro, (1989), compte Gente do Metro in Mai Portugal
Elbeszélok (Hongrie, 2000) ; Maldito entre as Mulheres,
(1999); De Mãos no Fogo, (2001) et Desaparecido no Salon
du Livre (2001). Essai: Ao sabor da Escrita
( 2001) et Nos Enredos da Crítica,
(2006). Essai A poesia Portuguesa depois da Revolução de Abril
in Portugal Heute et Portugiesische Literatur (1997),
Alemagne, et Projected Letters (2005) New York. Poésie:
Desde o Mar, 2005.
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